“O Prazer Oculto na Dor do Outro” por Marcos Nunes

“O Prazer Oculto na Dor do Outro” por Marcos Nunes

“O Prazer Oculto na Dor do Outro” por Marcos Nunes

Vamos refletir: a cada dia que passa, parece crescer em nós muitas vezes de forma silenciosa, um certo prazer diante da dor do outro.

Nessa semana, por exemplo, tivemos a convocação da seleção brasileira e a dúvida que pairava no ar: o técnico iria ou não chamar Neymar Jr.?

Ele não foi convocado; E o que mais chamou atenção não foi apenas a decisão, mas a reação de muitas pessoas nas redes sociais: “ainda bem que ficou de fora”, “achei pouco”, “está gordo”, “não joga mais nada”.

Houve uma vibração evidente pela ausência dele; e esse comportamento não acontece apenas no futebol.

Recentemente, durante o Academy Awards (Oscar 2026), o ator Wagner Moura esteve em destaque, concorrendo e não levando a estatueta. Mais uma vez, o que se viu foram comentários como: “ainda bem que perdeu”, “o filme é ruim”, entre outros julgamentos que parecem ir além das críticas,  e tocam em algo mais profundo, quase um alívio pela derrota do outro.

Não estou aqui para defender ninguém, mas para chamar a atenção para algo maior: estamos lidando com seres humanos. E, ainda assim, a desgraça alheia tem despertado satisfação em muitas pessoas.

E não para por aí.

Esse comportamento quando alguém perde o emprego e, em vez de apoio, recebe julgamentos. Quando um relacionamento termina e surgem comentários como “eu já sabia que não ia dar certo”. Quando alguém erra publicamente e vira alvo de ataques, memes e humilhações.

Também acontece nas pequenas coisas do dia a dia, quando alguém tropeça e a reação imediata é rir; quando acompanhamos a queda de alguém apenas como entretenimento, ou quando um colega falha   isso vira motivo de crítica, em vez de compreensão.

Isso revela algo importante sobre nós: muitas vezes, a dor do outro nos faz sentir, ainda que inconscientemente, um certo alívio, como se, por comparação, estivéssemos melhores.

Mas até que ponto isso é saudável?

Depois da COVID-19, o mundo mudou, e não necessariamente para melhor em todos os aspectos. As pessoas estão mais aceleradas, mais individualistas, mais voltadas ao material e ao consumo. O sucesso passou a ser medido com mais intensidade pelo que se tem, e não pelo que se é.

Nesse cenário, valores como empatia, compaixão e solidariedade acabam ficando em segundo plano. O outro deixa de ser alguém com uma história, dores e sentimentos, e passa a ser apenas mais um alguém que pode ser julgado, comparado e até descartado.

E talvez seja justamente por isso que a dor alheia, tem se tornado, para muitos, uma forma de entretenimento ou até de alívio, em vez de nos sensibilização.

Mas fica a reflexão: que tipo de sociedade estamos construindo quando nos acostumamos com isso?

Talvez o verdadeiro desafio seja resgatar aquilo que nos torna humanos.
Olhar para o outro com mais cuidado, menos julgamento e mais consciência.

Porque, no fim, todos nós, em algum momento, estará do outro lado.

Marcos Nunes  - Psicanalista