Nem toda inquietação é TDAH, você pode ter ACATISIA
Nem toda inquietação é TDAH, você pode ter ACATISIA
Em um cenário onde o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) tem aumentado significativamente, torna-se essencial lembrar que nem toda agitação, inquietação ou dificuldade de permanecer parado significa necessariamente TDAH.
Existe uma condição neurológica descrita há décadas na literatura médica, mas que ainda é pouco reconhecida por muitos profissionais da saúde: a Acatisia.
Essa falta de reconhecimento pode levar a erros diagnósticos importantes, fazendo com que pacientes recebam tratamentos inadequados para um quadro que, na realidade, possui outra origem.
O que é Acatisia
A acatisia é um distúrbio neurológico caracterizado por uma intensa sensação interna de inquietação, que gera uma necessidade quase incontrolável de movimento.
Não se trata apenas de agitação comum, muitas pessoas descrevem a sensação como um desconforto interno profundo, que faz com que seja extremamente difícil permanecer parado.
Entre os sintomas mais comuns estão:
- sensação interna constante de inquietação
- necessidade frequente de se movimentar
- dificuldade de permanecer sentado por muito tempo
- balançar as pernas repetidamente
- levantar e caminhar com frequência
- irritabilidade ou angústia associada à inquietação
Em muitos casos, o paciente relata que o corpo parece não conseguir ficar parado, mesmo quando há esforço consciente para controlar os movimentos.
Por que a Acatisia pode ser confundida com TDAH
A confusão acontece porque alguns comportamentos observados na acatisia podem parecer semelhantes aos sintomas do TDAH, como inquietação motora, agitação e dificuldade em permanecer sentado.
Entretanto, existe uma diferença importante.
No TDAH, a agitação está relacionada a um padrão neurocomportamental de atenção e impulsividade. Já na acatisia, o movimento ocorre porque existe uma sensação física intensa de desconforto interno que obriga a pessoa a se movimentar.
Ou seja, a pessoa não se movimenta por distração ou impulsividade, mas porque sente que precisa se mover para aliviar o desconforto.
Uma condição ainda pouco reconhecida, apesar de ser amplamente descrita na literatura médica, a acatisia continua sendo frequentemente subdiagnosticada na prática clínica.
Estudos indicam que esse quadro pode ocorrer em aproximadamente 20% a 30% dos pacientes que utilizam determinados medicamentos psiquiátricos, especialmente antipsicóticos e alguns antidepressivos.
Mesmo assim, muitos casos acabam sendo interpretados como ansiedade, agitação emocional, transtornos comportamentais ou sintomas de TDAH.
Outro fator que contribui para essa dificuldade é que parte dos sintomas da acatisia é subjetiva, envolvendo sensações internas difíceis de descrever.
O papel do terapeuta na identificação do quadro
Em muitos casos, psicólogos, psicanalista e terapeutas acabam sendo os primeiros profissionais a suspeitar da presença de acatisia.
Durante sessões terapêuticas mais longas, é possível observar com mais clareza a inquietação motora persistente, a dificuldade física de permanecer sentado e relatos de desconforto corporal intenso.
Esse tipo de observação clínica pode levantar a hipótese de acatisia induzida por medicação, permitindo que o paciente seja orientado a procurar uma reavaliação médica.
Atenção ao uso de medicamentos modernos para emagrecimento, é outro fator que merece atenção atualmente é o uso crescente de medicamentos injetáveis para emagrecimento, conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras.
Substâncias utilizadas no tratamento da obesidade e de alterações metabólicas podem exigir atenção clínica quando surgem sintomas como inquietação intensa, agitação incomum ou sensação constante de desconforto interno.
Esses sinais devem sempre ser avaliados dentro do contexto clínico do paciente.
Um alerta necessário na prática clínica
Em muitos casos, diagnosticar rapidamente um paciente como portador de TDAH pode parecer o caminho mais simples, no entanto, a prática clínica exige investigação, escuta e análise cuidadosa da história do paciente.
Pacientes muito inquietos ou agitados podem ser considerados mais difíceis de conduzir, e isso pode levar alguns profissionais a optarem por diagnósticos mais rápidos em vez de investigações mais detalhadas.
Mas a saúde mental exige exatamente o contrário tempo, atenção e responsabilidade clínica.
Quando a inquietação de um paciente é reduzida apenas a um rótulo diagnóstico, corre-se o risco de ignorar aquilo que o corpo está tentando comunicar.
Reconhecer a acatisia não é apenas uma questão de conhecimento técnico, mas também de responsabilidade clínica.
Em um cenário onde diagnósticos como TDAH se tornaram cada vez mais frequentes, é fundamental lembrar que nem toda inquietação tem origem comportamental.
Porque, na saúde mental, a diferença entre um olhar rápido e um olhar profundamente pode mudar completamente o destino terapêutico de uma pessoa.
Referências científicas:
1. Stephen M. Stahl.
Stahl, S. M. (2013). Stahl's Essential Psychopharmacology: Neuroscientific Basis and Practical Applications. Cambridge University Press.
O autor descreve a acatisia como um dos efeitos adversos neurológicos mais importantes associados a medicamentos psiquiátricos e ressalta sua frequência e subdiagnóstico na prática clínica.
2. David Healy., Herxheimer, A., & Menkes, D. (2006).
Antidepressants and violence: problems at the interface of medicine and law. PLoS Medicine.
O artigo discute efeitos adversos relacionados a medicamentos psicotrópicos, incluindo manifestações de acatisia frequentemente confundidas com ansiedade ou agitação comportamental.
3. Jonathan M. Kane., Fleischhacker, W. W., Hansen, L., Perlis, R., & Pikalov, A. (2009).
Akathisia: An Updated Review Focusing on Second-Generation Antipsychotics. Journal of Clinical Psychiatry.
Revisão clínica detalhada sobre prevalência, diagnóstico e dificuldade de reconhecimento da acatisia em pacientes em tratamento medicamentoso.
