O duplo cerco: Brasil entre o tarifaço americano e as barreiras chinesas

O duplo cerco: Brasil entre o tarifaço americano e as barreiras chinesas

O duplo cerco: Brasil entre o tarifaço americano e as barreiras chinesas

O comércio global vive um de seus momentos mais tensos das últimas décadas. Desde que Donald Trump retornou à Presidência dos Estados Unidos e colocou em prática sua política de tarifas recíprocas, o mundo assiste a uma escalada protecionista que já afeta diretamente o Brasil. Mas, se por um lado as atenções se voltam para Washington, outro movimento silencioso e igualmente impactante ocorre a milhares de quilômetros de distância: a China, maior parceiro comercial do Brasil, também impôs barreiras duras a produtos brasileiros. O país está, assim, apertado entre dois dos maiores mercados do planeta.

O tarifaço americano começou em abril de 2025, com uma tarifa de 10% sobre todos os produtos brasileiros. Em julho daquele ano, Trump elevou a alíquota para 50% — a maior taxa aplicada a qualquer país do mundo —, justificando a medida com críticas ao sistema Pix, ao comércio de etanol, a questões de propriedade intelectual e ao desmatamento. Em junho de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) concluiu uma investigação e propôs uma nova tarifa adicional de 25% sobre bens brasileiros. Com isso, o Brasil acumula até 50% na maioria dos produtos e passará a ter, a partir de 22 de julho de 2026, a maior tarifa média aplicada pelos EUA entre todos os países da América do Sul. Em janeiro de 2025, a tarifa efetiva era de apenas 1,19%; agora, chega a 14,42%.

Do lado chinês, o cenário também se complicou. Em 31 de dezembro de 2025, Pequim anunciou uma tarifa adicional de 55% sobre as importações de carne bovina que excederem uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas para o Brasil. A medida, classificada como salvaguarda comercial e válida por três anos (até 2028), tem como objetivo proteger a indústria pecuária chinesa, que enfrentava excesso de oferta interna. O Brasil, maior fornecedor externo de carne bovina para a China, atingiu 98,5% da cota já em junho de 2026 — e, a partir de julho, cada tonelada adicional exportada paga a sobretaxa de 55%. O impacto já é concreto: dezenas de frigoríficos brasileiros paralisaram produção e concederam férias coletivas, conforme noticiou a revista Veja. E há o risco de agravamento: o senador Flávio Bolsonaro declarou que a China pode elevar a tarifa para 67% se o volume exportado continuar crescendo.

Para o consumidor brasileiro, os efeitos são sentidos em várias frentes. No agronegócio, os principais produtos exportados — carne bovina, açúcar, café, soja, minério de ferro, óleos brutos e celulose — enfrentam barreiras nos dois maiores mercados consumidores. Com a exportação dificultada, a tendência é que parte dessa produção retorne ao mercado interno, o que pode, em tese, aumentar a oferta e pressionar preços para baixo em alguns itens. Por outro lado, setores que dependem de insumos importados dos EUA — como máquinas, equipamentos industriais, fertilizantes e defensivos agrícolas — tendem a ficar mais caros, gerando um efeito cascata sobre a inflação. O BTG Pactual estima que as tarifas americanas podem retirar mais de US$ 10 bilhões da balança comercial brasileira, enquanto o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços calcula perdas entre US$ 2,3 bilhões e US$ 4,1 bilhões apenas com a nova sobretaxa de 25% dos EUA.

Na cadeia de suprimentos, o protecionismo duplo força uma reorganização profunda. Com os EUA mais fechados, o Brasil naturalmente se volta para a China — que já absorve 31,5% de todas as exportações brasileiras. O problema é que justamente o principal parceiro comercial também ergueu barreiras. Especialistas ouvidos pelo UOL alertam para o risco da dependência excessiva de um número limitado de compradores. Ao mesmo tempo, a China sinaliza disposição para trabalhar com o Brasil em defesa do comércio multilateral, enquanto o governo brasileiro aposta na negociação diplomática para reduzir alíquotas. No curto prazo, a incerteza já afugenta investidores: julho de 2026 deve ser o pior mês para a B3 em quatro anos, com forte saída de capital estrangeiro, e a redução da entrada de dólares ameaça interromper a trajetória de queda do câmbio.

Resumindo, o Brasil enfrenta um aperto comercial simultâneo nos dois maiores mercados do mundo. De um lado, os EUA impõem a maior tarifa média da América do Sul, combinando medidas punitivas com retórica política. Do outro, a China — maior compradora individual de produtos brasileiros — adota salvaguardas que já paralisaram setores inteiros da indústria frigorífica. O risco imediato é a perda de competitividade das exportações, a pressão inflacionária via insumos mais caros, a fuga de capital estrangeiro e a dependência excessiva de um único parceiro comercial. O governo aposta na negociação para escapar do aperto, mas, como bem resume o ditado lembrado pelo governo chinês, "não há vencedores em uma guerra tarifária".